Por que o bacalhau domina a mesa da Sexta-feira Santa no Brasil?

Por que o bacalhau domina a mesa da Sexta-feira Santa no Brasil? abr, 4 2026

Quem nunca se perguntou por que, de repente, as prateleiras dos supermercados ficam lotadas de peixe salgado em março ou abril? O bacalhau tornou-se a estrela absoluta da mesa brasileira durante a Sexta-feira Santa, transformando-se em um símbolo de fé, memória e, claro, gastronomia. Mas a verdade é que essa preferência não nasceu por acaso; ela é o resultado de uma mistura curiosa entre dogmas religiosos e a logística das grandes navegações.

Aqui está o ponto central: a escolha do peixe não é apenas uma questão de sabor, mas de obediência (ou costume) aos preceitos da Igreja Católica. Para os fiéis, a data marca a crucificação de Jesus Cristo, sendo um momento de luto, jejum e profunda reflexão. A orientação é clara: nada de carne vermelha, que é vista como um alimento de celebração e festa — algo totalmente fora de sintonia com a atmosfera de dor e sacrifício do dia.

A herança portuguesa e a logística do sal

Mas por que logo o bacalhau? Para entender isso, precisamos voltar séculos no tempo, especificamente à Portugal da Idade Média. Naquela época, não existiam geladeiras ou freezers. A única maneira de transportar proteína por longas distâncias sem que ela apodrecesse era através da salga extrema e da secagem ao sol. O bacalhau, pescado nas águas gélidas do Atlântico Norte, era perfeito para isso.

Quando os portugueses iniciaram o processo de colonização do Brasil, trouxeram esse hábito na bagagem. O peixe seco era a comida ideal para as tripulações que passavam meses em alto mar. Com o tempo, o que começou como uma necessidade de sobrevivência nas caravelas acabou se infiltrando nos costumes locais, fundindo a fé católica com a praticidade do alimento importado.

Do dogma religioso ao afeto familiar

Com o passar das gerações, a obrigatoriedade religiosa começou a dar lugar ao carinho. Acontece que a comida tem um poder incrível de ancorar memórias. Para muitos brasileiros, o cheiro do bacalhau sendo dessalgado na noite anterior não remete apenas ao pecado ou à penitência, mas ao colo dos avós e à casa cheia.

Curiosamente, essa tradição se expandiu. Hoje, encontramos pessoas que nem sequer frequentam a igreja, mas que fazem questão de preparar o prato típico na Sexta-feira Santa. É quase como um ritual secular de união familiar. A mesa vira o ponto de encontro onde a herança cultural é transmitida, transformando o ato de comer em um gesto de preservação da história da família.

Variações regionais: o toque brasileiro

O bacalhau chegou aqui com a receita europeia, mas o brasileiro, que não resiste a adaptar tudo, deu seu toque especial. Dependendo de onde você estiver no país, o prato muda completamente de cara. Veja algumas das variações mais comuns:

  • O Clássico: Acompanhado de batatas, azeitonas pretas e cebolas refogadas no azeite.
  • O Tropical: Em algumas regiões, especialmente no litoral, surge a ousadia do leite de coco e a pimenta.
  • A Versão Caseira: O uso de ovos cozidos e maionese para criar saladas mais leves.

A ciência da abstenção: como surgiu a prática?

Se formos olhar para a história do cristianismo primitivo, a abstenção de carne não começou com um peixe específico. Nos primeiros séculos, a prática de evitar carnes vermelhas era uma forma de autodisciplina e desapego dos prazeres mundanos. Não havia um "cardápio oficial"; o objetivo era a simplicidade.

A escolha do peixe como substituto ganhou força porque ele era visto como um alimento humilde e, em muitas regiões costeiras, era a única proteína disponível e acessível. O bacalhau apenas "ganhou a corrida" por ser o mais resistente ao transporte e armazenamento, tornando-se a face visível de uma tradição que, na verdade, é muito mais antiga que a própria colonização da América.

O que esperar para as próximas gerações?

A tendência é que o bacalhau continue presente, mas talvez com menos peso religioso e mais peso gastronômico. Com a ascensão de dietas mais conscientes e a popularização de outros frutos do mar, o prato pode evoluir, mas a essência de reunir a família em torno de uma refeição especial na sexta-feira da Paixão dificilmente desaparecerá.

Perguntas Frequentes sobre a Tradição do Bacalhau

Por que não se pode comer carne vermelha na Sexta-feira Santa?

Na tradição católica, a Sexta-feira Santa é um dia de luto e penitência, pois recorda a morte de Jesus. A carne vermelha é historicamente associada a festas e banquetes, por isso a Igreja orienta a abstenção para manter o clima de reflexão e sacrifício.

O bacalhau é nativo do Brasil?

Não, o bacalhau não é nativo. Ele foi trazido pelos portugueses durante a colonização. O peixe é pescado principalmente no Atlântico Norte e chega ao Brasil processado (salgado e seco), técnica que permitia que ele atravessasse o oceano sem estragar.

Existem outras alternativas ao bacalhau para este dia?

Sim, qualquer fruto do mar ou peixe fresco pode ser consumido. No Brasil, é comum o uso de tilápia, salmão ou camarão. A escolha do bacalhau é mais cultural e histórica do que uma exigência religiosa estrita.

Qual a melhor forma de dessalgar o bacalhau?

A recomendação de chefs e cozinheiros é deixar o peixe de molho na água gelada por cerca de 24 a 48 horas, trocando a água a cada 6 ou 8 horas. Isso garante que o sal saia sem cozinhar a fibra do peixe prematuramente.

A tradição do bacalhau ainda é seguida por quem não é católico?

Sim, muita gente mantém o hábito por influência familiar ou cultural. O prato tornou-se um marco social do calendário brasileiro, funcionando como um momento de reunião familiar que transcende a obrigatoriedade da fé.